quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

YOGA ATITUDES E MUDANÇAS

Swāmi Dayānanda dá um exemplo surpreendente para definir o que seja uma mudança de atitude: um jovem vai casar com uma garota. Na véspera do casório, a noiva pede para falar com o noivo. Ela conta que é adotada, que os pais que lhe apresentou não são seus pais biológicos.
Explica que foi encontrada por essa família, muito jovem, perdida no Kumbha Mela de Allahabad, um grande festival religioso. Como não conseguiram achar os pais, o casal que a encontrou a adota e a cria com todo amor. Ela recebe o nome de Gaṅgā, o rio à cuja beira foi encontrada. A amam muito, como se fosse a própria filha.
Na medida em que escuta a estória, o garoto lembra da irmã mais nova dele, que foi perdida 24 anos atrás, justamente naquele Kumbha Mela. Aí cai a ficha e ele corre para a mãe para perguntar se por acaso a noiva é a irmã que ele perdeu naquela oportunidade. A mãe olha as marcas de nascença da garota e a reconhece como a sua própria filha, Mīṇā, perdida em Allahabad.
Então, o garoto estava para casar com a menina. Ele ignora o fato que ela é sua irmã. Ele não casaria com a própria irmã. Quando fica sabendo que ela é a irmã perdida, sua atitude em relação muda radicalmente: ele não a vê mais como uma mulher, nem como noiva ou esposa. A vê apenas com uma irmã.
Esse é um processo instantâneo: num momento está disposto a lhe dar seu coração, como amante e esposo. Agora, vê ela com amor de irmão. Ao reconhecer o fato, acontece uma mudança relevante na atitude. Essa mudança relevante não é gradual, não acontece aos poucos: ela é radical e instantânea, e nasce do conhecimento que ele tem da situação agora.
A mudança de atitude é uma consequência natural do conhecimento que ele recebe. Similarmente, há mudanças de atitude em relação a muitas outras coisas. Mas todas essas atitudes derivam da mesma fonte: o conhecimento dos temas de fundo.
Muita gente não compreende esses temas fundamentais, que aliás constituem a base para qualquer mudança de atitude. Sem compreensão desses assuntos, qualquer tentativa de mudança de atitude será tola e limitada. Voltando ao exemplo, o garoto não precisa que ninguém lhe diga que ele precisa tratar àquela moça como se fosse a própria irmã. Ele já sabe que ela é a irmã, e sabe como tratá-la.
O ensinamento da Bhagavadgītā lida justamente com a capacidade de transformar atitudes. Por exemplo, apego em desapego, sofrimento em contentamento, oscilação emocional em equilíbrio, e outras. O fruto do autoconhecimento é uma mudança de atitude instantânea em relação ao reconhecimento da limitação dos desejos, por exemplo.
Compreendendo que os desejos não têm a capacidade de me tornar feliz, simplesmente abro mão do apego que nutri por eles e estes perdem a força que tinham sobre mim. Quando sei quem sou, quando me vejo como a pessoa simples e tranquila que sou, e reconheço que nada pode ser acrescido ou tirado de mim, o apego e o sofrimento se enfraquecem e cessam. Isso é mokṣa, a libertação, objetivo final de todo Yoga.
Namaste!

Pedro Kupfer